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Licklider: das redes descentralizadas à colaboração na Internet

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É difícil apontar, sem fazer desmerecimentos, à pessoa responsável por criar a Internet. Afinal, não houve somente uma, mas um esforço contínuo de indivíduos interessados em passar informação de maneira direta através de uma interface.

A história da Internet começa a ser desenhada durante e depois da Segunda Guerra Mundial com a parceria de três grupos distintos: universidades, forças armadas e empresas privadas, formando um complexo industrial-militar-acadêmico. Um dos responsáveis por unir essas esferas foi o professor do MIT Vannevar Bush, criador do primeiro computador analógico. Ele era fascinado pela tecnologia assim como pela arte e buscava incessantemente atribuir um papel de maior relevância para a ciência e a engenharia, numa época de poucas inovações interessantes (as invenções mais extraordinárias no período da Feira Mundial de Nova York de 1939 eram um relógio de pulso do Mickey Mouse e a lâmina de segurança da Gillette).

Em julho de 1945, Bush escreveu um relatório ao presidente Harry Truman no qual sugeria que o governo financiasse a pesquisa básica, em conjunto com universidades e indústrias. Ele teria dito: “A pesquisa básica leva ao novo conhecimento. Ela produz capital científico. Ela cria a base a partir da qual as aplicações práticas do conhecimento devem se desenvolver”.

Neste ambiente, surge a figura de Joseph Carl Robnett Licklider, conhecido como Lick. Este técnologo, e também psicólogo, foi o pioneiro intelectual dos conceitos inerentes à Internet: as redes descentralizadas, que facilitam a propagação da informação, e as interfaces que possibilitam a interação homem-máquina em tempo real. Vindo de uma família de baleeiros, Licklider saiu da área rural isolada em que vivia para percorrer o caminho acadêmico, como as universidades de Washington, Harvard e MIT, onde teorizou, junto com um grupo liderado pelo professor Robert Wiener, o estudo de como seres humanos e máquinas funcionam em conjunto, cunhando assim o termo “cibernética”. Wiener chegou a escrever: “Muita gente acha que as máquinas de computação são substitutos da inteligência e eliminaram a necessidade de pensamento original. Este não é o caso. Quanto mais potente é o computador, maior o ganho que se terá conectando-o ao pensamento humano imaginativo, criativo e de alto nível”. Essa visão da ciência da computação, mais tarde, seria chamada de simbiose homem-computador.

J._C._R._LickliderEm 1960, Licklider publicou um artigo que constituiu uma das mais influentes bases para a tecnologia pós-guerra, intitulado “Man-Computer Symbiosis”. “A esperança é que, dentro de não muitos anos, cérebros humanos e computadores haverão de estar conjugados de forma bem próxima e que a parceria daí resultante irá pensar como nenhum cérebro humano jamais pensou e processar dados de um modo muito distante da forma com que o fazem as máquinas de processamento de informações de que dispomos hoje” – esse conceito merece destaque, pois foi fundamental no desenvolvimento da era dos computadores em rede. Nesta questão, tanto Licklider quanto Wiener estavam próximos porque suas teorias da cibernética eram constituídas da aproximação homem-máquina, trabalhando juntos. Aliás, o “fazer junto” foi uma constante na vida do cientista. Segundo seu filho, Tracy: “Para ele, a colaboração era a chave de tudo. [Licklider] saía por aí criando grupos de pessoas e estimulando-as a serem curiosas e resolver problemas. Ele sabia que obter boas respostas requeria colaboração à distância. Adorava descobrir pessoas talentosas e reuni-las numa equipe”.

Uma história que merece ser contada, data da última fase da carreira do tecnólogo, quando este trabalhava no Pentágono. Licklider acompanhava curioso a atenção de uma das faxineiras pelas gravuras expostas em sua parede. Ela então veio lhe dizer: “Sempre saio da sua sala tarde porque gosto de ter um tempo para mim mesma, sem sofrer nenhuma pressão, para olhar os quadros”. Como admirador da fina arte, Licklider passava horas em museus, apreciando cada detalhe das pinturas, refletindo sobre a criatividade empregada nas pinceladas e texturas. Então, o cientista perguntou qual obra a mulher mais gostava, ao que ela apontou para um quadro de Cézanne. Comovido, por aquele ser um dos seus favoritos, Licklider ofereceu-o a ela na mesma hora.

 

Fonte:

ISAACSON, Walter. Os Inovadores: Uma Biografia da Revolução Digital. 1a edição. São Paulo: Companhia das Letras. 2014.
Imagem: computerhistory.org